quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O antes, o nunca, o depois

O hálito trazia o gosto da vaidade
uma aspereza caprichosa dormindo nas vontades
do corpo desprendiam gotas de futilidade
que os olhos prendiam ou soltavam a cada piscar
e a noite se foi; foi-se o dia
no outubro dormiu sua fera vazia
manhã liberta, soprou a poeira,
abriu a janela, despiu-se de tudo,
voltou a caminhar.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A busca II

A casa era uma só bagunça. Jogava as coisas para cima, vasculhava tudo. Era um abrir de gavetas sem fim. Olhava debaixo da cama, no fundo do armário. Suava. Os olhos injetados. Talvez a pressão arterial. Se um dia a tivera, como poderia tê-la perdido? Mergulhava na cela solitária, e abria um rasgo na barriga, e nem ali a fé estava.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Livros


Das coisas invisíveis e As borboletas são assim
(Podem ser comprados na Livraria LDM Multicampi - Tel.: 2101-8000)
II Antologia de Poetas Lusófonos (Compras pela internet, clique aqui.)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Lembranças

Derrubei o tinto em roupas brancas
desamarrei em mares minhas tranças
soprei a poeira em tantas danças
rasguei as roupas sonolentas
só para desarrumar o quarto
das minhas lembranças.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Incauta

Ela tinha
um cacófato
atravessado
na garganta.
Blasfêmia!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Acídulo

Ela não tinha cheiro de nada
sua língua um gosto azedo
os olhos rasos e opacos
nas mãos suados segredos.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Notícias do lançamento


Queridos e queridas,
o lançamento foi lindo!
Quero agradecer a presença quente, alegre e serena de vocês, amigos queridos,
a divulgação em sites e blogs, o acolhimento caloroso da Livraria LDM Multicampi.

Àqueles que participaram diretamente do projeto "Das coisas invisíveis", a minha gratidão e felicidade por ter pessoas tão especiais perto de mim. Cinthia de Oliveira Gonçalves, Eli Lima, Fábio Failde, Flavio de Queiroz, Gerana Damulakis, Luana Maldonado, Mara Ferreira, Marcos di Silva, Maria da Conceição Paranhos, Marta Rebouças e Tais muito obrigada!

Agradecimento especial à Natureza e seus requintes. Uma linda borboleta entrou na Livraria LDM na manhã do lançamento. Atravessou as estantes de livros e flutuou derramando sua alegria entre os presentes. Decerto, um bom presságio.

Em breve, fotos do evento.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Lançamento do livro de contos DAS COISAS INVISÍVEIS

domingo, 9 de agosto de 2009

Minha menina

Estava ouvindo rádio neste fim de semana quando tocou "Bola de meia, bola de gude" de Milton Nascimento e Fernando Brant. Sem perceber comecei a assobiar a canção, cantando e dançando. De repente comecei a pensar na minha menina. Se eu estava dando a devida atenção a ela. Se estava fazendo caretas, brincadeiras, dançando e pulando o suficiente para deixá-la feliz, alimentada. Também lembrei de um certo domingo quando fui com meu marido na casa de uns amigos. Enquanto ele conversava com o amigo, nós, as esposas fomos ao quarto de música e ficamos dançando com fitas na mão. Pura diversão! As fitas faziam desenhos no ar. A minha menina sorriu profundamente e me senti imensamente livre e criança. É muito gostoso brincar como criança! Sem temer o ridículo sem precisar se esconder.
A vida parece ser feita dessas coisas também. Solta, leve, livre, feito brincadeira de criança.


Bola de meia, bola de gude (fragmento) Milton Nascimento e Fernando Brant

Há um menino
Há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mão
(...)
Toda vez que a bruxa me assombra
O menino me dá a mão
(...)
Toda vez que a tristeza me alcança
O menino me dá a mão
(...)
Toda vez que o adulto fraqueja
Ele vem pra me dar a mão

domingo, 2 de agosto de 2009

O tempo

Eu vejo o tempo passar
pela soleira da porta
com suas horas repentinas,
ásperas e úmidas.

Ele leva os ares da casa,
as festas, as serpentinas,
os vultos transtornados
leva tudo o que há
para ser levado.

terça-feira, 28 de julho de 2009

A pintura

Uma gargalhada lúbrica
boca de café bem quente.
Ela escorre pela parede
nua, dança entorpecida.
Língua nos lábios,
cabelos ardentes.

Fim da tarde,
no divã deitada,
pousa pro pintor
comedidamente.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Pesadelo

Acordei com a noite
atravessada na garganta
refutando minhas certezas
insuflando-me horrores
Para uma noite de pesadelos
recomendo:
Insônia em um ou dois goles.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Sobre a tarde

É um vento forte, áspero e quente
que toca bravio as tardes do meu coração.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Vestuário

Vista as palavras de minha safra
como quiseres.
Fantasia, luto, batina, hábito
Podes também deixá-las simplesmente nuas.

domingo, 12 de julho de 2009

Ácido

Foi no deserto que perdi minhas cores
lavadas em baldes de ácido nítrico.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Momento azul

É no azul que escondo meus segredos,
feras repugnantes vestidas de fadas,
medo irremediável - solidão que invade a casa.

sábado, 4 de julho de 2009

Sonhos

Chove.
Meus sonhos são papéis derretidos
escorrem nus pelo bueiro.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Deus

Olhei para o espelho
o meu Deus não ria,
não chorava.
Olhava apenas
eu a ele; ele a mim
eu, dele; ele meu
eu, ele; ele, eu.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Algum lugar em mim

não quero falar dos espelhos: quebro-os
não quero tocar nas agulhas: entorto-as
não quero olhar os espinhos: retalho-os
no silêncio, olhos cerrados, não me defloro.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Ela

Não sei que leveza
ela quer derramar
pelos cantos da casa.
Sopro de cores brilhantes
nudez, desatino, beleza.
Na trama dos teus beijos:
mar doce, salgados enlevos.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Dafne

Quisera apenas ser Dafne
com seus cabelos de folhas
os olhos cobrindo a tarde
nascendo a manhã em flores.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

A casa do fotógrafo

As manhãs eram brandas, doces, lentas: outro tempo. Recordo-me durante o sal do dia, velocidade intensa.
Na calçada, mãe e filhas seguiam. Passos, passinhos, passinhos. Um risinho aqui, outro acolá.
- Olha para os dois lados e atravessa, se não vier carro.
Mais risinhos. Ah, uma manhã doce pintada de saudade.
Já era possível ver a casa na beira da rua. Uma portinha com janela ao lado. Tão estreita a fachada. Era um sorriso quem abria a porta.
- Podem entrar. Sentem-se um pouco.
E as duas meninas pousavam felizes para o retrato 3 x 4.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Ecologistas na cozinha

Cascas de legumes, verduras, talos, saquinhos de chá usados (de papel), coadores de papel com pó de café ou cevada, farelos e migalhas de pães, biscoitos, torradas e cascas de ovos são, em geral, parte do lixo gerado por uma residência.
Tudo isso pode virar um excelente composto para jardinagem, seja para plantas ornamentais, seja para uma horta orgânica.
Dar o destino certo para o lixo individual já é um grande passo ecológico. Vamos pensar nisso!
Em breve dicas para iniciar a compostagem - " processo biológico em que os microrganismos transformam a matéria orgânica, como estrume, folhas, papel e restos de comida, num material semelhante ao solo, a que se chama composto, e que pode ser utilizado como adubo."[1]

[1] http://www.ib.usp.br/coletaseletiva/saudecoletiva/compostagem.htm

Doze dezembros

Eu sonho um dezembro.
Alimentado, saciado,
um dezembro farto.

Nele os adornos são os olhares sinceros,
a compaixão e o respeito ao próximo.
As canções são vozes felizes
que vivem com dignidade.

E que seja dezembro o ano inteiro!

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

MdS

quero beber a sua voz
que em cântico no leito me embevece
quero seu olhar pairando
sobre a minha pele
seu cheiro versando cores
dentro do meu corpo
que a vida é feita desses ardores!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Desconexo

Desafetos meus correm ao abrigo
leito retorcido
casa de palavras gastas.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Górgona

Há uma Górgona a gritar comigo
ela me pune, me insulta, me viola
Sua mazela é mais severa:
nada onde seu olhar pousa vive.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A noite e o licor

Um cheiro deita sobre a cidade ainda morna
vozes luminosas atrás dos vidros
um sino de fumaça soa reticente
já posso deglutir a noite fria.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Fotografando

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Movimento

O pé beija o solo displicente
e sente mesmo quente a vida que o governa
a perna voa em arco calmamente
traduz todo o seu passo mundo afora
e o tronco tão sagaz espera
que avante vai levando sem demora.

domingo, 7 de setembro de 2008

O relógio

Eu vi um relógio derretido na parede. Suas gotas caiam em horas vazias e o tempo jazia junto ao rodapé.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Ana e o tempo

Eu deixo o tempo soprar suas horas céleres
nos meus cabelos brancos
nas rugas que torneiam meu rosto
com suas notas austeras.
Neste beijo, língua a língua,
descreve seu eixo, sua luz, sua sabedoria.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Serenando

Eu ainda não sei caminhar
com as pernas vazias de mar.
Dissimulo um mergulho,
afundo em segredos agudos.
São ondas que lavam meus olhos
eu canto pra não serenar.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Olhando pro mar

A vida é um olhar que paira no horizonte
um riso solto numa manhã de domingo,
um corpo andando pelas calçadas da cidade.
A vida é dia, a vida é noite.

A vida é a chuva que cai enchendo poças,
é planta brotando viçosa,
é fé, é segredo.
A vida é o luar na roça.

Ainda é vida aquela que dança
diante de enredos, em fios, em tramas.
A vida é uma dama de doces enlevos.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Microconto: Os espelhos

Na minha casa há muitos espelhos, e vidros, e ladrilhos. Caleidoscópios aglutinados. Contracenam comigo com suas gargalhadas insólitas.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Microconto: A espera

Em casa aguardava. Olhos vazios, cortinas fechadas. No cesto revistas antigas. Lidas. Amassadas. No peito, apenas uma esperança amarga.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Microconto: A busca

Buscava o oco. Já não sentia as alfinetadas, não via as caras. Pusera-se solto no tempo, no espaço. Olhos despovoados, queixo de leve cerrado. Bebeu o vazio entre náuseas e gritos.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Microconto: Árvore


Deitou-se nua na terra encharcada. Permaneceu. Chuva ininterrupta. Permaneceu. Dos orifícios correram seivas, dos capilares caíram raízes, dos cabelos sopraram folhas verdes.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Um azul para vestir

Saio vestido de azul e azul meu riso vai
escorre serra abaixo, desce vales, desatinos
e num azul de mar explode em rochas repentino
por fim, do azul me dispo com sorriso cristalino.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Microconto: A tentativa

Manhã de quarta-feira. Sol. Cansado, meio tonto ainda... conjeturas apenas. Antunes levantou após a tentativa de suicídio com sua expressão mais insípida. Triste: não conseguira.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Microconto: Aldalice

Lasciva. Pequena saia sem calcinha. Seu caminho rotineiro pelo cais. Subindo, descendo as escadas, querendo mais. Em seu pouso; sua tristeza e seus brinquedos vazios.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Indagações furtivas

Em quantas horas cabem aqueles minutos distraídos,
lidos e relidos dentro de mosaicos divertidos?
Em quais das tramas passas dias recolhido,
quais as linhas, quais tecidos pro vestido colorido?
Quais?